CES em Cena
 
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CES em CENA 58

O que Fazer num Planeta a Arder?

Na última Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26), que teve lugar entre 31 de outubro e 12 de novembro de 2021 em Glasgow, ocorreu um episódio sintomático da inércia da maioria dos países ricos em relação à grave crise ambiental que atravessamos. Joe Biden, recostado na sua cadeira e com um copo (de plástico? reciclável?) contendo provavelmente café à sua frente, fechou os olhos e adormeceu durante uma apresentação em vídeo. Quanto mais o ativista na gravação exortava os líderes mundiais a “parar a destruição deste magnífico planeta” e a “tomar decisões que vão afetar as vidas de gerações vindouras” num dos “encontros mais importantes da história,” mais as pálpebras de Biden se fechavam num desejo irreprimível de dormir uma sesta. Acordado após alguns momentos de ditoso descanso por um assistente, Biden ainda foi a tempo de aplaudir a apresentação, notoriamente com pouco entusiasmo, enquanto esfregava os olhos.

Num planeta a arder, com incêndios florestais a dizimarem áreas cada vez maiores das grandes florestas ainda existentes, milhares de espécies a desaparecerem todos os anos, oceanos cada vez mais ácidos e as temperaturas médias a subirem em flecha, os líderes das maiores economias mundiais não parecem ter grande pressa em mudar o status quo. O encontro em Glasgow foi a vigésima sexta Conferência das Partes (Conference of the Parties – COP) que assinaram a primeira convenção sobre o clima há quase 30 anos. De então para cá, os problemas ambientais do planeta só têm vindo a piorar. No Acordo de Paris, adotado durante a COP21 em 2015, os países signatários comprometeram-se a manter o aquecimento global abaixo de 2 graus celsius, preferencialmente até abaixo de 1,5 graus, em relação aos valores pré-industriais. Passados seis anos, estamos cada vez mais longe de atingir esse objetivo. Fala-se já num aumento que não ultrapasse os 2,7 graus, meta que, tal como as anteriores, provavelmente também não será cumprida.

E o que fazem os nossos líderes enquanto o planeta aquece? Enquanto que uns, literalmente, dormem em serviço, outros, tal como António Costa, assim como os chefes de estado de grandes poluidores como a China e a Rússia, nem sequer comparecem em Glasgow.

Não é de admirar que as decisões tomadas na COP26 sejam dececionantes. Um exemplo é o acordo ratificado por 110 países para acabar com a desflorestação até 2030. Com a Amazónia, a Bacia do Congo e tantas outras áreas de floresta tropical a arderem numa escala alarmante, frequentemente para dar lugar a explorações agropecuárias em escala industrial, os países presentes na COP26 acharam por bem esperar mais 9 anos para pôr fim à desflorestação. É de notar que uma declaração semelhante, assinada em Nova York em 2014, não surtiu qualquer efeito. Com a Amazónia em risco de atingir um “ponto de viragem” e de, por falta de chuva, se transformar numa savana, onde estaremos em 2030? Estará Biden ou o seu sucessor mais alerta quando o ar se tornar irrespirável? Estará o primeiro-ministro português da altura presente na COP quando os incêndios provocados por um clima cada vez mais quente tiverem dizimado o que ainda resta das florestas no país?

O espetáculo dos líderes mundiais a fingir preocuparem-se com o meio ambiente durante duas semanas em Glasgow terá que ser substituído por ações concretas para começarmos a restaurar a saúde de um planeta intoxicado e febril. Acabar com o desmatamento, com o uso de plásticos e de outros materiais altamente poluentes; banir os combustíveis fósseis o mais brevemente possível; usar energia renovável e materiais recicláveis e não tóxicos na produção desta energia; mudar a cultura do “descartável,” das mercadorias baratas e com vida curta, cujo custo ambiental não é contabilizado no preço de venda; abandonar a cultura do crescimento económico incessante, que nos estimula a querer sempre mais de tudo; transformar os hábitos alimentares humanos, favorecendo o consumo de produtos de base vegetal; e investir na educação e independência financeira das mulheres, de forma a reduzir o crescimento galopante da população mundial no último século, são algumas das medidas que temos que tomar, não em 2030 mas já. E preparar-nos, como cidadãs e cidadãos de nações ricas, para pagar a fatura de mais de duzentos anos de poluição industrial e para ajudar as nações mais pobres do planeta, que pouco contribuíram para a situação atual, a mitigar as consequências dos problemas ambientais que já vivemos, e que se agravarão certamente num futuro muito próximo.

Patrícia Vieira

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