Universidade Sul - Sul

 

ESPECIALIZAÇÃO E CURSO INTERNACIONAL - EPISTEMOLOGIAS DO SUL
3ª Coorte (2018-2019)

• Modalidade virtual 

• Coordenação geral: Boaventura de Sousa Santos (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)

• Coordenação académica: Karina Bidaseca (CLACSO, Universidade Nacional de San Martín e Universidade de Buenos Aires, Argentina) e Maria Paula Meneses (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)

Especialização: 480 horas / cátedra 
Curso Internacional: 120 horas / cátedra
Duração: abril de 2018 a março de 2019
 

Fundamentação

Vivemos tempos turbulentos e complexos. Neste cenário, as Epistemologias do Sul fornecem instrumentos teóricos e metodológicos que permitem desenvolver um diagnóstico crítico do presente que tem como seu elemento constitutivo a possibilidade de reconstruir, formular e legitimar alternativas para uma sociedade mais justa e libre.

A Especialização e o Curso Internacional baseiam-se em três eixos fundamentais a partir das Epistemologias do Sul: 1. Que a interpretação do mundo supera a interpretação eurocêntrica do mesmo; 2. Que não é possível haver justiça social global sem justiça cognitiva global; 3. Que as transformações emancipadoras produzidas no mundo não se podem restringir a gramáticas e guiões desenvolvidos pela teoria crítica centrada no Norte global; pelo contrário, as Epistemologias do Sul reivindicam uma diversidade que é possível (re)conhecer e valorizar.

Este espaço de formação, centrado na promoção de diálogos interdisciplinares Sul-Sul procura registar e interpretar as resistências ao colonialismo, ao capitalismo e ao patriarcado  nas nossas sociedades. Em paralelo, o objetivo é estudar o Sul global em toda a sua diversidade, um Sul que metaforicamente traduz um amplo campo de inovação económica, social, cultural e política de crescente diversidade, no qual os diálogos entre saberes traduzem as condições da pluriversalidade.

Destinatários

A Especialização e o Curso Internacional em Epistemologias do Sul dirigem-se a estudantes universitários de graduação e pós-graduação; docentes de todos os níveis; ativistas e militantes de movimentos sociais, organizações e partidos políticos; integrantes da sociedade civil, jornalista, comunicadores e trabalhadores da imprensa; integrantes e gestores/as de organizações não governamentais e profissionais interessados/as em temas sociais e políticos que caracterizem a diversidade do Sul global.

Equipa Docente (Curso Internacional e Especialização)

· Ángeles Castaño Madroñal (Universidade de Sevilla, España)
· Boaventura de Sousa Santos (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· Carla Braga (Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique)Cristiano Gianolla (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· Gladys Tzul Tzul (Instituto Amaq', Guatemala)
· Ileana de las Mercedes Hodge Limonta (Academia de Ciências, Cuba)
· Ivani Ferreira de Faria (Universidade Federal do Amazonas, Brasil)
· Jason Fernandes (ISCTE, Lisboa, Portugal)
· João Arriscado Nunes (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· Jorge Ramos Tolosa (Universidade de Valência, Espanha)
· José Gandarilla (Universidade Nacional Autónoma de México, México)
· Juan Carlos Gimeno Martín (Universidade Autónoma de Madrid, Espanha)
· Karina Bidaseca (Universidade Nacional de San Martín e Universidade de Buenos Aires, Argentina)
· Leonardo Avritzer (Universidade de Minas Gerais, Brasil)
· María Antonieta Antonacci (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil)
· María Paula Meneses (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal e Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique)
· María Haydeé García Bravo (Universidad Nacional Autónoma de México)
· Mario Rufer (Universidade Autónoma Metropolitana, México)
· Marisa Gonçalves (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· Marta Sierra (Kenyon College, Estados Unidos da América)
· Nilma Gomes (Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil)
· Orlando Aragón Andrade (Escuela Nacional de Estudios Superiores, campus Morelia da Universidade Nacional Autónoma de México)
· Rosalva Aída Hernández (Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social, México)
· Sandra Silva Carvalho (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· Sara Araújo (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· Teresa Cruz e Silva (Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique)
· Teresa Cunha (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)


Estrutura Académica

O Curso Internacional terá uma duração anual e requer para sua creditação a participação nos fóruns de discussão e a realização de um trabalho final.
A Especialização terá uma duração anual e requer para sua creditação a realização do Curso Internacional; a realização de 2 seminários virtuais opcionais da oferta curricular; a realização da oficina de Elaboração de Trabalhos Finais e a elaboração de um trabalho final.

A Especialização e o Curso Internacional de Epistemologias do Sul decorrerão entre abril de 2018 e março de 2019.

Os seminários virtuais e as classes do Curso Internacional serão oferecidos indistintamente em espanhol ou português. A bibliografia poderá ser fornecida nas duas línguas oficiais do curso, segundo a sua disponibilidade. As intervenções das/os estudantes nos fóruns de debate também poderão ser feitas nas duas línguas. O trabalho monográfico final poderá ser entregue em português, ou em espanhol.

As e os estudantes da Especialização e do Curso Internacional irão dispor do apoio de tutores académicos que acompanharão o decorrer dos seminários virtuais e orientarão a realização dos trabalhos finais.

O Curso Internacional procura também construir outra biblioteca e uma cartografia de movimentos sociais, onde outras vozes e saberes encontrem espaço e visibilidade, desafiando as tentativas de epistemicídio e subalternização epistemológica.

Uma vez terminados os seminários, as/os estudantes contarão com um prazo de 4 meses para entregar o trabalho final, até ao mês de julho de 2019, inclusive. Se os/as estudantes tiverem  pendentes a realização de seminário, terão  mesmo prazo para terminar o seminário.


Proposta curricular

CURSO INTERNACIONAL: Justiça entre saberes – as Epistemologias do Sul e os saberes nascidos nas lutas

Este curso internacional sobre as Epistemologias do Sul, termo cunhado por Boaventura de Sousa Santos, tem como objetivo apresentar e debater conhecimentos produzidos no Sul global, base de reflexão para a transformação social nos tempos atuais. Ou seja, com o estudo de diversas possibilidades reveladas pelas Epistemologias do Sul, este curso tem como objetivo teórico e metodológico, a superação do modelo característico do pensamento moderno eurocêntrico, a saber, o pensamento abissal.

Conhecer a partir do Sul e com o Sul requer uma orientação política e epistémica distinta. O Sul global, tópico central deste curso, procura reconhecer e validar o conhecimento produzido desde as/os oprimidas/os, por mulheres e homens que sofreram e sofrem a injustiça, a opressão, a dominação, a exclusão, causadas pelo capitalismo, pelo colonialismo e pelo patriarcado. As Epistemologias do Sul, como metáfora de exclusões abissais, de silenciamentos e da destruição dos povos e saberes, procura dar corpo aos saberes e experiências do Sul global, a partir de pressupostos metodológicos e reflexivos em diálogo, em contraposição com qualquer proposta etnocêntrica.

Os professores e professoras do curso tentarão problematizar, a partir de diferentes lugares geopolíticos e epistémicos, as condições para um diálogo horizontal entre conhecimentos, para as ecologias de saberes. Estes diálogos, e as aprendizagens que contêm, refletem as inovações que acontecem em países e regiões do Sul global. Esta aposta exigente pressupõe disponibilidade para o reconhecimento mútuo, uma compreensão intercultural, uma convergência política e ideológica, um respeito pela identidade e uma celebração da diversidade, como condições para um diálogo mais democrático no Sul global.

Construir conhecimento a partir das Epistemologias do Sul requer outras metodologias de trabalho. Aprender desde o próprio Sul, na sua diversidade, significa ir para além do saber académico convencional. Construir diálogos entre diferentes saberes e lutas busca dar visibilidade aos povos e grupos sociais cujas práticas se constroem a partir desses conhecimentos. Só assim será possível desenvolver narrativas alternativas que questionam a impossibilidade de pensar a diferença (sexual, étnica, racial, de classe, casta, religiosa, etc.) com a igualdade, a íntima conexão entre o local e o global, projetos de outras economias, e de outras sociedades políticas. A segunda parte do curso propõe-se mapear, apresentar e discutir uma variedade de metodologias de trabalho ancoradas no corpo de saberes desenvolvidos a partir das perspetivas das Epistemologias do Sul, privilegiando a ecologia de saberes e as possibilidades de tradução intercultural entre saberes nascidos nas lutas.


Equipa Docente do Curso Internacional

· Ángeles Castaño Madroñal (Universidade de Sevilla, España)
· Boaventura de Sousa Santos (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· Carla Braga (Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique)
· Gladys Tzul Tzul (Benemérita Universidad Autónoma de Puebla, México)
· Ileana de las Mercedes Hodge Limonta (Academia de Ciências, Cuba)
· Ivani Ferreira de Faria (Universidade Federal do Amazonas, Brasil)
· Jorge Ramos Tolosa (Universidade de Valência, Espanha)
· Juan Carlos Gimeno Martín (Universidade Autónoma de Madrid, Espanha)
· Karina Bidaseca (Universidade Nacional de San Martín e Universidad de Buenos Aires, Argentina)
· Leonardo Avritzer (Universidade de Minas Gerais, Brasil)
· Jason Fernandes (ISCTE, Lisboa, Portugal)
· João Arriscado Nunes (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· José Manuel Mendes (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· María Antonieta Antonacci (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil)
· Maria Paula Meneses (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal e Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique)
· Mario Rufer (Universidade Autónoma Metropolitana, México)
· Nilma Gomes (Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil)
· Orlando Aragón Andrade (Escuela Nacional de Estudios Superiores campus Morelia, Universidade Nacional Autónoma de México)
· Rosalva Aída Hernández (Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social, México)
· Sara Araújo (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal)
· Teresa Cruz e Silva (Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique)


Oficina de apoio à Elaboração de Trabalhos Finais

Esta oficina tem como finalidade apoiar a elaboração dos trabalhos finais da Especialização em Epistemologias do Sul. Apoiará na identificação do tema do trabalho final do Curso Internacional, interligando as temáticas tratadas ao longo do Curso Internacional como os intereses de investigação/ação, e os  trajetos próprios  dos/as estudantes. Procura-se apoiar a identificação e justificação  do tema a ser tratado ; consolidar as ferramentas conceptuais e metodológicas trabalhadas ao longo do Curso Internacional; e apoiar a produção do trabalho final que pode ser tanto escrito como audiovisual, performático ou de outro género.

Trabalhar-se-á em grupos orientados por tutoras/es que discutirão nos fóruns, ao longo de 3 meses


SEMINÁRIOS OPCIONAIS

1. Os desafíos às democracias no século XXI
Coordenação: Sandra Silva Carvalho e Cristiano Gianolla (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra).

Resumo: O seminário procura promover uma reflexão crítica sobre teorias e práticas democráticas contemporâneas em diversos âmbitos, contextos e escalas. Uma equipa internacional de professores/as, com conhecimentos e experiências complementares, abordarão a temática a partir de distintos pontos de vista e realidades partindo de um olhar crítico sobre os conceitos de democracia e das suas práticas. As (novas) formas de resistência em democracias de baixa intensidade serão alvo de uma atenção especial, tanto no plano teórico como no plano prático. Cada docente partirá de uma caracterização da democracia, situada num contexto e escala particular, que se propõe debater; passará depois a definir os desafios e terminará com uma leitura crítica das respostas que são dadas pelas instituições, pelos cidadãos, pelas comunidades e pelos movimentos, centrando-se naquelas que poderão surgir no sentido de intensificar as práticas democráticas.


2. Ecologia feminista de saberes
Coordenação: Teresa Cunha (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra).

Resumo: O seminário sustenta-se na premissa teórica de Boaventura de Sousa Santos, segundo a qual não há justiça social sem justiça cognitiva. Esta interpelação questiona toda a imaginação sociológica feminista que homogeneíza e amalgama a intensa diversidade e, infinita potencialidade, dos conhecimentos e das experiências disponíveis no mundo. Assumindo como raiz conceptual a ecologia de saberes, opta-se por ir ainda mais além: buscar reconhecer, valorizar e validar ecologias feministas de saberes.


3. Memórias, lutas sociais e processos de reconciliação construídos a partir das ecologias de saberes
Coordenação: Marisa Gonçalves e Maria Paula Meneses (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra e Universidade Eduardo Mondlane).

Resumo: Em distintos contextos do Sul global, os debates entre as narrativas oficiais/ nacionais da história dos países e as memórias individuais e/ou coletivas dos povos e comunidades com frequência não coincidem com os significados das lutas nacionalistas pela independência e contra o colonialismo, o capitalismo e o patriarcado. Estas memórias constituem um influente “arquivo” ao qual diversas gerações recorrem para articular as suas conceções de identidade e de nação, assim como para reivindicar direitos e o acesso à justiça social e cognitiva, assim como ao bem-estar social e económico, como este curso se propõe debater, a partir de vários contextos, privilegiando narrativas orais e alternativas que desafiam as histórias oficiais.

4. Lutas das Mulheres no Sul: América Latina, África e Oriente
Coordenação: Karina Bidaseca (Universidade Nacional de San Martín e Universidade de Buenos Aires).

Resumo: Este seminário aborda as genealogias de lutas das mulheres contra as experiências presentes da colonialidade como um fato cultural disruptivo na pluriversalidade que se apresenta nos chamados Outros Suis: Outras Áfricas, Outros Orientes, Outras Ásias, Outras Oceânias, Outras Europas. As lutas das mulheres originárias e campesinas contra o agronegócio; as mulheres saharauis refugiadas; a agência das mulheres muçulmanas; afrodescendentes e africanas, palestinas, asiáticas, constituem uma amostra real dos impactos do poder na vida das comunidades do Sul afetadas por guerras e pelos seus silenciamentos. Atravessando fronteiras disciplinares, o curso concentrar-se-á nas contribuições presentes das escritoras feministas negras caribenhas e feministas africanas; nos estudos da interseccionalidade do afrofeminismo, do feminismo de(s)colonial e pós-colonial, nas estéticas de diferentes artistas, assim como nas etnografias realizadas no Oriente que informam sobre os planos do real e do simbólico, as vidas etéreas nas fronteiras entre Ocidente e seus outros, a racialização dos corpos escritos sob o guião dos fundamentalismos culturais.


5. Raça/ negritude e humanidade. Traduções interculturais entre América Latina, Caribe e África
Coordenação: José Gandarilla (Universidade Nacional Autónoma de México) e María Haydeé García Bravo (Universidad Nacional Autónoma de México)

Resumo: A questão do ”homem negro”, da sua ”negritude” e humanidade, encontra-se no centro dos debates contemporâneos sobre racismo e violência colonial e (pos)colonial. Nas discussões sobre o movimento da ”negritude” produzido por Aimé Césaire, é inegável que existe uma dimensão ”mítica” no imaginário do retorno a África, que depois vem a ser questionado pelos autores afroantilhanos – creolistas – como Edouard Glissant, Patrick Chamoiseau, entre outros. Para Glissant, a única possível extensão desse conceito era o ato pelo qual o mesmo é superado e começa a ”auto-possessão”.  Na década de 1950, Frantz Fanon problematizava o carácter racial da epistemologia eurocêntrica, que constrói o negro na ”zona do não-ser”. No outro lado do Atlântico, em África, a questão colonial foi proposta também como crítica ao eurocentrismo e à centralidade africana/ negra na história do mundo; os debates sobre a filosofia africana, entre outros, que são ou desconhecidos na América Latina e Caribe, ou estão presos as representações eurocêntricas. Um diálogo entre intelectuais que desafiam as relações de hierarquia e desigualdades entre Norte-Sul, com base numa lógica capitalista monocultural, convida a pensar na historicidade desses diálogos atravessados por práticas de tradução intercultural que enfrente e subverta os projetos coloniais que se materializam no que Valetin Mudimbe define como ”biblioteca colonial”.

6. Estéticas descoloniais a partir do Sul. Arte, memórias e corpos
Coordinação: Marta Sierra (Kenyon College) e Karina Bidaseca (Universidade Nacional de San Martín e Universidade de Buenos Aires).

Resumo: A amnésia do império e os passados silenciados afetam a nossa memória, assim como os modos insurgentes de representação da alteridade, em particular dos povos afrodescentes e originários do Sul nos quais sobrevive a colonialidade. Assim, o que Edward Said definiu como “permissão para narrar” referia a sobrevivência como um ato de resistência na Palestina, vivendo num “Tempo Presente (Tenso)” ou “Present Tense” como o define a artista palestina exilada Mona Hatoum. O seminário propõe-se discutir a descolonização dos discursos e dos imaginários na representação histórica e a sua (im)possibilidade dentro dos limites temporais e espaciais da modernidade/ colonialidade a partir da produção artística e cultural na/através da qual se inventam práticas emancipatórias de re(ex)sistência.


CRONOGRAMA

VER ANEXO

para mais informações : página da CLACSO