Co-habitações: dinâmicas de poder em Lautém (Timor-Leste)

Período
10 de janeiro de 2012 a 9 de julho de 2015
Duração
42 meses
Financiamento
Fundação para a Ciência e Tecnologia
Resumo

Este projecto propõe uma análise sobre a constituição do poder e do território em processos de co-habitação com base em trabalho de campo na região de Lautém (Timor-Leste). Sustentamo-nos numa visão intersubjectiva sobre o modo como nos constituímos no mundo com base em processos de “co-criação” ou “co-constituição” (Toren 1999; Viegas 2007). Tal visão obriga-nos a prestar atenção às influências mútuas que resultam da co-existência de processos sociais distintos, não apenas lado a lado, mas interagindo uns com os outros. Ultrapassamos o espartilho das abordagens antropológicas sobre o espaço, o poder e a propriedade que não comunicam entre si: umas fecham-se nos “estudos coloniais e pós-coloniais” e tendem a reificar o Estado como sujeito; outras dedicam-se a uma compreensão etnográfica sem integrar os níveis de intermediação entre as vivências e as instancias de institucionalização do poder. A abordagem que propomos intersecta várias áreas de conhecimento, explorando a co-constituição da pessoa na sua historicidade e na integração de experiências entre mundos diversificados.
Propomo-nos analisar as reconfigurações das relações com o espaço e com as instâncias de representação do poder politico centrados numa investigação sobre a região Fataluku em Bauro (Lautém/Lospalos). Aqui se conjugam dinâmicas de intersecção entre formas difusas de organização do poder assentes em sistemas denominados “patrilineares” que se cruzam com o processo de titulação da terra em marcha em Timor-Leste e a expansão a nível regional do aparelho estatal (McWilliam 2001, 2006; Kingsbury in Leach & Kingsbury, forthcoming). A escolha desta região resulta da viagem exploratória realizada por ambos os investigadores em 2009.
Seguindo trabalhos anteriormente desenvolvidos (Feijó 2006, 2009; Viegas 2007), pretendemos ultrapassar visões de “choques de paradigmas” (Hohe 2002), considerando que a vivência da história se faz em processos de co-constituição, que podem assumir configurações diversificadas (Viegas 2007; Cummins & Leach & Leach and Kingsbury forthcoming).
No caso aqui em análise, isso significa que é preciso:

a) romper o afastamento entre a compreensão de estruturas “étnicas” como a dos Fataluku e as estruturas do Estado. A este nível iremos centrar-nos na procura de categorias analíticas de intermediação;

b) tomar a representação politica e democrática do Estado moderno em construção como um processo de mudança a partir de mecanismos já anteriormente co-constituídos na relação dos Fataluku com os diversos intervenientes de representação política.
O projecto desenvolve duas linhas de investigação articulando áreas sobre que a investigadora principal e o investigador nuclear têm trabalhado. 1º: o assunto da posse da terra e de uma reflexão sobre a historicidade e os modelos epistemológicos de intermediação - neste caso com desenvolvimento e investigação anterior no âmbito indígena no Brasil (Viegas 2007, 2009, 2009a, 2010). 2º: o tema da representação politica no âmbito do processo de construção e consolidação do “moderno” Estado democrático em Timor-Leste. O investigador nuclear tem larga experiência no país, onde viveu 18 meses e fez trabalho embrionário sobre processos de constituição das instituições democráticas como diálogo entre as estruturas formais do Estado moderno e formas de legitimação política historicamente ancoradas (Feijó 2009).
A articulação entre as linhas de investigação permite-nos chegar à compreensão integrada e holista, num plano, comparativa e generalista noutro, do modo como se processa a representação politica a partir de instancias que vão do poder mais local das comunidades de base (“sukus” e “aldeias”) a níveis intermédios (cuja definição está em curso) e que representam uma inovação na construção de um Estado com diversos níveis de organização politica. Procura-se entender como é que as formas de legitimação politica de diversa índole interagem para construir um edifício de governança em espaços territoriais atravessados por lógicas diversas e concorrenciais.
A metodologia a desenvolver nestas linhas de investigação vai cruzar-se em vários planos. A investigação sobre a posse da terra baseia-se em trabalho de campo com observação participante entre Fatalukus (Bauro), complementando uma ‘antropologia da vida diária’ (Viegas 2007) com um levantamento de ‘histórias de família’ (Pina-Cabral & Lima 2005). Irá também desenvolver-se em torno das acções regionais de titulação da terra e de eleições no local. A linha de investigação sobre a representação política articula observação participante em Lautém no período de preparação (2012-2013) e realização das eleições (2013) para órgãos de poder politico descentralizado (“municípios”) próxima do “spectateur engagé” de Raymon Aron, complementada por entrevistas, numa rede de contactos descentralizados e ainda um trabalho de levantamento, documental e por entrevistas, dos principais debates e decisões com âmbito nacional e incidência regional/local.

Resultados

Publicação de livros e artigos científicos; conferências e seminários.

Parceiros

A instituição proponente deste projeto é o Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa.

Investigadoras/es
Rui Feijó
Susana Viegas (coord)
Palavras-Chave
poder e espaço, posse da terra e títulos de propriedade, Timor-Leste e contextos regionais comparativos, representações democráticas