Honoris Causa

Universidade Federal de Mato Grosso distingue Boaventura de Sousa Santos

Setembro de 2014

Boaventura de Sousa Santos, Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, recebeu dia 12 de setembro de 2014 o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

“É muito difícil encontrar as palavras que possam traduzir este momento audacioso e prenhe de sentidos, sentidos que comportam sempre a ambiguidade da existência humana, na qual, os sinais explodem e excedem o signo e aquilo que eles apontam”, referiu na ocasião o professor Luiz Augusto Passos, membro do Grupo de Pesquisa em Movimentos Sociais e Educação (GPMSE), que requereu a concessão deste título a Boaventura de Sousa Santos, devido à importância dos estudos brasileiros realizados pelo professor português, pela relevância política de suas publicações em defesa da democracia e participação dos movimentos sociais e pelo conjunto de obras voltado para a dimensão da interculturalidade e do diálogo de consenso entre os setores sociais, no acesso aos bens públicos e coletivos, e cidadania.

“Trazer fisicamente o professor Boaventura de Sousa Santos ao espaço de nossa universidade é retomar o sentido de sua própria missão, desde as suas origens, de ser uma Universidade da Selva (...). Trazer Boaventura, o homem que tem perturbado o norte com o sul, é selar com ele, com seus sonhos, os nossos próprios sonhos de origem e marca. Afirmação derradeira de que é, por isso mesmo, o lugar em que o professor não apensa sempre deveria ter estado, mas sobretudo o lugar onde ele sempre encontrou o sentido da pasárgada de Manoel Bandeira, no centro geodésico da América, que implica sonhos de emancipação do colonialismo, da cultura da colonialidade, sonho maior daquilo que a política implica, indigita e demanda: o sentido último da vida na terra, reconstruir dia após dia, hora após hora, nossas primordiais e ancestrais, telúricas, do pleno sentido da convivialidade eivada pela justiça e amorosidade”, disse emocionado.

Para Luiz Augusto Passos, tudo que possa dizer do cidadão Boaventura “está muito aquém, do poder, efetivamente, traduzir a força, a abrangência, a grandeza” e “da profundidade de sua investigação, mas se une ao intelectual o sábio, tomado por lógicas emancipatórias”. “Toda sua biografia começa com a memória do Brasil, aponta a grandeza das histórias dos seus avôs que aqui foram migrantes. O período do seu doutorado esteve enamorado pelo nosso país, e com ele nos pés, nos suores, na favela do Jacarezinho, tão protegida durante anos pelo seu silêncio respeitoso, e foi de lá, sob a vida sem frescura dos seus moradores, que o professor Boaventura debruçou-se no movimento emancipatório, de sofrimentos entremeados pelas batidas de tamborins, que apontavam a luta pela liberdade e pela autonomia”, frisou no seu discurso.

Segundo o professor Luiz Augusto Passos, “trazer Boaventura a Cuiabá é ressuscitar os sonhos, a chama que ainda fumega, de que esta terra nos é emprestada, por solidariedade daqueles primeiros moradores dela, que a cercaram por compreenderem que ela pertence a todos e não exclusivamente a um único dono”.

O reitor em exercício, João Carlos Maia, destacou as contribuições acadêmicas e científicas do homenageado. Falou da política de internacionalização da UFMT e do fortalecimento das relações com outras universidades, com reflexos na qualidade do ensino, pesquisa e extensão.

Durante a sessão solene, o professor Saulo Tarso Rodrigues, pesquisador membro do Grupo de Pesquisa em Movimentos Sociais e Educação e professor da Faculdade de Direito, fez a leitura do currículo do homenageado. Saulo Rodrigues é doutor em Sociologia do Estado e do Direito na disciplina de Direitos Humanos, pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e foi orientado pelo professor Boaventura Santos. “O professor possui uma obra extensíssima entre as quais se destacam algumas que marcam a trajetória do professor no Brasil e os conceitos que lhes são caros”, disse ao elencar as obras mais conhecidas: ‘Um discurso sobre as ciências’; ‘Pela mão de Alice’; ‘Reinventar a democracia’; ‘A crítica do tempo quando foge’; ‘Democracia e participação: o caso do orçamento participativo de Porto Alegre’; ‘A universidade do século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade’; ‘Fórum Social Mundial: manual de uso’; ‘A gramática do tempo – uma nova cultura política’; ‘Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social’; ‘Para uma revolução democrática da justiça’, entre outras.

Boaventura de Sousa Santos é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É igualmente Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

É diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; coordenador científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa. Dirige o projeto de investigação ALICE - Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências o mundo, um projeto financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), um dos mais prestigiados e competitivos financiamentos internacionais para a investigação científica de excelência em espaço europeu.

Após a sessão de outorga do título, Boaventura de Sousa Santos proferiu ainda a palestra “A Universidade Pluriversa: a educação tem quem a eduque?”, além de ter efetuado o lançamento do livro “O direito dos oprimidos”, publicação que integra a tese de doutoramento defendida por Boaventura de Sousa Santos em 1973 na Universidade de Yale (EUA). É a primeira vez que este trabalho de investigação conhece publicação em português.

Registo vídeo do evento: http://ufmt.itvu.rnp.br/portal/content/REDEIFES/UFMT/5610752

Fonte: Universidade Federal de Mato Grosso