Teses Defendidas
Paradoxos Coloniais: Memória, Pós-Memória e Esquecimento nas Narrativas de Segunda Geração
14 de Abril de 2026
Pós-Colonialismos e Cidadania Global
António Sousa Ribeiro
A presente tese partiu da perplexidade da autora perante as contradições e omissões que "narram" Portugal, quando coloca no centro da sua identidade nacional o período da expansão marítima, apresentado como a época áurea da história nacional, mantendo, em simultâneo, uma memória pública vacilante entre silêncios e comemorações sobre o longo período que dista essa época e a descolonização no século XX. Após três décadas de silêncio público sobre o final do império português, timidamente interrompido por epifenómenos literários ou académicos, o fim do império ressurgiu na memória nacional através de narrativas memoriais de pessoas e famílias que viveram em primeira mão a descolonização, uma memória que se pautara, até muito recentemente, por um tom nostálgico, celebratório ou mesmo expiatório.
Estando os descendentes das famílias vindas das colónias africanas para Portugal depois de 1974 mais próximos, relacional e emocionalmente, da memória coletiva do final do colonialismo, estudaram-se os processos narrativos com que esta experiência tem vindo a ser transferida entre gerações. A inovação do presente trabalho jaz no cruzamento dos conceitos de memória e pós-memória com o conceito de esquecimento, para compreender de que forma as gerações seguintes, que nunca viveram naquele tempo-espaço, constroem significados dessa memória no seu presente e como os narram. Para compreender o comportamento da pós-memória sobre o final do império, a autora focou-se no caso angolano, tendo realizado vinte e quatro entrevistas semiestruturadas a descendentes da geração que chegou de Angola com a independência, oriundos de famílias racializadas brancas e não-brancas, com atuação em diferentes serviços ou áreas económicas na colónia, e com diferente longevidade de vida em Angola. Identificaram-se as narrativas transmitidas entre gerações, os silêncios e os esquecimentos, perscrutando o lugar da violência nestas memórias (em particular nas dimensões racial e sexual).
Num primeiro capítulo empírico, foram analisadas as narrativas de vida, com o objetivo de identificar os elementos que compõem as pós-memórias de quem descende do testemunho dos últimos anos do colonialismo português em Angola. Identifica-se a predominância de uma narrativa que se respalda num "cronótopo Angola", cujo significado no presente é impossibilitado por um tempo cristalizado. Esta narrativa de pós-memória passiva decalca o testemunho construído em família. No capítulo seguinte, realizou-se um exercício de amnesiologia (Plate 2016), identificando-se esquecimentos nos relatos, mediante comparação com narrativas socialmente marcadas ou outras fontes documentais, sobretudo literatura e história. As violências racial e sexual são dois esquecimentos transversais, desestabilizados por residuais inquietações de descendentes que manifestam uma incipiente pós-memória ativa. Percebeu-se neste trabalho que quanto mais próxima a pós-memória se encontra da memória familiar e dos testemunhos, maiores são os vácuos de memória, o esquecimento. Finalmente, nos capítulos sétimo e oitavo, a análise centrou-se nos processos narrativos da pós-memória e nos significados de que se revestem hoje, à luz da época política e social contemporânea. Produtora de paradoxos coloniais, a narrativa da pós-memória coloca alguns desafios éticos e apresenta limitações no contributo que poderia dar a uma consciência histórica nacional crítica sobre este período histórico.
Nesta análise multi-escalar, os esquecimentos emergem e, com eles, a relevância sociológica das pós-memórias. A conceção de memória e de pós-memória enquanto produção de significado sobre uma ausência no presente, mediante aptidões como imaginação, mediação e tradução entre experiência e expectativa, coloca o indivíduo inexoravelmente no cerne da memória social e na produção de tempo histórico. As narrativas da pós-memória, decalcando o testemunho familiar que ouviram incessantemente, mantêm-se empenhadas com o "futuro da sua memória". Ainda assim, um pequeno grupo avança com perguntas e desconforto que revelam um processo de imaginação mnemónica em curso para "recordar um futuro", num trabalho de memória em curso que urge acompanhar.
Data de Defesa
Programa de Doutoramento
Orientação
Resumo
Estando os descendentes das famílias vindas das colónias africanas para Portugal depois de 1974 mais próximos, relacional e emocionalmente, da memória coletiva do final do colonialismo, estudaram-se os processos narrativos com que esta experiência tem vindo a ser transferida entre gerações. A inovação do presente trabalho jaz no cruzamento dos conceitos de memória e pós-memória com o conceito de esquecimento, para compreender de que forma as gerações seguintes, que nunca viveram naquele tempo-espaço, constroem significados dessa memória no seu presente e como os narram. Para compreender o comportamento da pós-memória sobre o final do império, a autora focou-se no caso angolano, tendo realizado vinte e quatro entrevistas semiestruturadas a descendentes da geração que chegou de Angola com a independência, oriundos de famílias racializadas brancas e não-brancas, com atuação em diferentes serviços ou áreas económicas na colónia, e com diferente longevidade de vida em Angola. Identificaram-se as narrativas transmitidas entre gerações, os silêncios e os esquecimentos, perscrutando o lugar da violência nestas memórias (em particular nas dimensões racial e sexual).
Num primeiro capítulo empírico, foram analisadas as narrativas de vida, com o objetivo de identificar os elementos que compõem as pós-memórias de quem descende do testemunho dos últimos anos do colonialismo português em Angola. Identifica-se a predominância de uma narrativa que se respalda num "cronótopo Angola", cujo significado no presente é impossibilitado por um tempo cristalizado. Esta narrativa de pós-memória passiva decalca o testemunho construído em família. No capítulo seguinte, realizou-se um exercício de amnesiologia (Plate 2016), identificando-se esquecimentos nos relatos, mediante comparação com narrativas socialmente marcadas ou outras fontes documentais, sobretudo literatura e história. As violências racial e sexual são dois esquecimentos transversais, desestabilizados por residuais inquietações de descendentes que manifestam uma incipiente pós-memória ativa. Percebeu-se neste trabalho que quanto mais próxima a pós-memória se encontra da memória familiar e dos testemunhos, maiores são os vácuos de memória, o esquecimento. Finalmente, nos capítulos sétimo e oitavo, a análise centrou-se nos processos narrativos da pós-memória e nos significados de que se revestem hoje, à luz da época política e social contemporânea. Produtora de paradoxos coloniais, a narrativa da pós-memória coloca alguns desafios éticos e apresenta limitações no contributo que poderia dar a uma consciência histórica nacional crítica sobre este período histórico.
Nesta análise multi-escalar, os esquecimentos emergem e, com eles, a relevância sociológica das pós-memórias. A conceção de memória e de pós-memória enquanto produção de significado sobre uma ausência no presente, mediante aptidões como imaginação, mediação e tradução entre experiência e expectativa, coloca o indivíduo inexoravelmente no cerne da memória social e na produção de tempo histórico. As narrativas da pós-memória, decalcando o testemunho familiar que ouviram incessantemente, mantêm-se empenhadas com o "futuro da sua memória". Ainda assim, um pequeno grupo avança com perguntas e desconforto que revelam um processo de imaginação mnemónica em curso para "recordar um futuro", num trabalho de memória em curso que urge acompanhar.

