Teses Defendidas

Do caniço ao cimento: A transição urbana de Lourenço Marques para Maputo (1961-1992)

Nuno Simão Gonçalves

Data de Defesa
28 de Janeiro de 2025
Programa de Doutoramento
Patrimónios de Influência Portuguesa
Orientação
Julio Carrilho e Walter Rossa
Resumo
A capital de Moçambique carateriza-se, por uma fusão entre o seu passado colonial e o presente pós-colonial. Essa combinação, ocorrida essencialmente depois da Independência, foi no sentido predominante do "caniço" para o "cimento", isto é, da sub-urbe, onde outrora viviam segregados os colonizados urbanos, para a urbe, projetada e construída para os colonos. Com o êxodo em massa destes últimos durante a conturbada transição sociopolítica moçambicana, as populações africanas da "cidade do caniço" começaram paulatinamente a apropriar-se do espaço público e privado da "cidade de cimento". Esse árduo processo exigiu uma adaptação mútua, dos novos inquilinos à antiga "cidade dos brancos" ("xilunguíne", em ronga) e vice-versa.Depois da euforia inicial da "primavera revolucionária", com as promessas de "escangalhamento" do sistema colonial deposto e a sua substituição por uma "economia planeada" baseada no "socialismo africano", rapidamente ficou evidente para os novos governantes e respetivos governados que o acesso às zonas centrais da pretendida "cidade socialista" não estariam ao alcance de todos os moçambicanos, mas apenas aos que se enquadrassem com o desejado perfil sociopolítico do "homem novo". Este procedimento fez com que, poucos anos depois da Independência, voltassem a surgir na capital, em geral de forma violenta e coerciva, fenómenos de segregação e gentrificação, já sem a componente racial, como no regime deposto, mas mantendo uma vincada discriminação económica, social e cultural.Em resposta, as vítimas dessa marginalização recorreram a estratégias de resistência e sobrevivência informais que já os haviam ajudado a subsistir no antigo "caniço" durante a época colonial. Consequentemente, estes marginalizados urbanos acabaram por criar empiricamente uma modernidade alternativa à pretendida pela nova ordem política, tal como o haviam feito durante o regime colonial. Será no conflito e na tensão entre a modernidade oficial, imposta pelos governantes, antes e depois da Independência, e a modernidade alternativa, ou possível, adotada pelos governados, que a cidade aqui em estudo construirá a sua identidade difusa. As tensões entre tradicional e moderno, informal e formal, ilegal e legal, primitivo e civilizado, "caniço" e "cimento", "caniçorização" e gentrificação, irão assim contribuir, desde a efetiva ocupação colonial até à atualidade pós-colonial, para a modelação dos espaços urbanos da capital de Moçambique.Esta dissertação pretende, através de uma abordagem multidisciplinar e comparativa que prioriza a perspetiva do "caniço" e os seus habitantes, elencar e dissecar as referidas tensões, os seus atores e respetivas estratégias, sejam elas formais, informais ou um compromisso entre ambas, e como moldaram a paisagem urbana da cidade de Maputo, em particular o seu núcleo central. No essencial, pretende-se compreender com um "outro olhar" como surgiu, evoluiu e resistiu a "cidade de caniço", no contexto colonial, e de que forma influenciou e/ou contaminou a "cidade de cimento", depois da Independência.