Projeto de Tese de Doutoramento

Corpos extra-ordinários no desporto: uma leitura pós-humana crítica sobre a regulação da hiperandrogenia e identidades trans

Orientação: Ana Cristina Santos

Programa de Doutoramento: Estudos Feministas

Nos Jogos Asiáticos de 2006, a atleta indiana Santhi Soudarajan terminou a prova de corrida de 800 metros em segundo lugar, depois de já ter conquistado vários prémios em eventos internacionais. No dia seguinte foi submetida a exames médicos por quatro profissionais de saúde da Associação Internacional de Federações de Atletismo (AIFA), nenhum deles falante da língua nativa da atleta, o Tamil. Santhi apenas soube o propósito dos exames quando regressou à sua localidade; tinha sido submetida a testes de verificação de sexo. A atleta "não passou" nesses testes e a medalha que tinha ganho foi-lhe retirada, bem como a permissão de voltar a competir. Pouco tempo depois entrou em depressão profunda e tentou suicidar-se por envenenamento.

O desporto de competição convencional, diferentemente do desporto recreativo ou adaptado, é um espaço genderizado (de Lauretis, 1994) que reproduz a organização sexual da sociedade: divisão dos espaços/competições conforme o sexo - dois sexos são reconhecidos -, e a cada um associado um determinado padrão biológico, comportamental e performativo. Esta instituição cumpre assim o seu dever em reproduzir e regular aquilo que o biólogo Gerald Callahan (2009) designou por "mito dos dois sexos". Associados aos padrões biológicos, os padrões comportamentais impostos culturalmente estão assentes numa suposta superioridade do sexo masculino que se constitui enquanto princípio organizador do mundo. Várias foram, e continuam a ser, as atletas que veem a sua sexualidade colocada em questão devido às características físicas tidas como masculinas acompanhadas por desempenhos desportivos acima da média. Se ter um corpo próximo ao ideal de masculinidade é, por si só, motivo de curiosidade social e disciplina médica, a "masculinidade feminina" (Halberstam, 1998) fica especialmente sob suspeita quando a performance da atleta atinge valores superiores aos expectáveis, aproximando-se dos valores das competições masculinas. A fim de promover o fair play nas competições femininas, várias federações e associações desportivas apresentam normas para a admissão de atletas com hiperandrogenia que implicam testes de verificação sexual e procedimentos médicos, bem como normas que regulam a admissão de atletas trans. Este tipo de regulação é uma prática de longa data que foi sofrendo alterações na forma de operar desde a década de 1930, passando desde a observação da genitália e exames ginecológicos a testes cromossomáticos e, mais recentemente, estudos hormonais. Os testes de verificação de sexo servem para impor um limite na performance desportiva das mulheres Heggie (2010: 158), e têm como consequência marginalizado pessoas intersexo ou transgénero (Buzuvis, 2016: 30). Não existe semelhante limite no que respeita às competições masculinas, não havendo uma preocupação por parte das federações em determinar a vantagem ou desvantagem fisiológica dos homens. Tal ausência evidencia uma assimetria e acentua o caráter genderizado do universo desportivo.

Tomando como ponto de partida a história passada e a atual regulação sexual no desporto, com recurso a documentos produzidos por instituições desportivas, pretendo elaborar uma crítica queer aos mesmos, com enfoque nos documentos reguladores de identidades trans e da hiperandrogenia. Os documentos serão lidos criticamente à luz da teoria do regime farmacopornográfico por Preciado (Preciado, 2008), através da qual podemos considerar as regulações institucionalizadas de sexo como tecnologias de género programadas para "domesticar" (Foucault, 1994) corpos-extraordinários. Através das teorias pós-humanistas feministas (Braidotti, 2006, 2013, Haraway, 1992, 2009) será possível chegar à problematização dos esquemas dialéticos de pensamento, nomeadamente do corpo artificial Vs corpo natural, natureza Vs cultura, rejeitar as identidades unitárias ligadas ao ideal eurocêntrico e normativo de homem (branco, perfeito) a partir do qual o mundo se organiza e cria um ideal normativo de mulher atleta, para responder à questão final de como pensar novas políticas desportivas com base num entendimento adequado acerca do funcionamento do sujeito pós-humano contemporâneo.