Encontro

Heróis e Vilões: representações a partir dos Estudos da Memória e dos Estudos de Género

18 de abril de 2018, 14h30

Sala 1, CES | Alta

Resumos das comunicações

Paulo Alexandre Pereira, “Queering the hero”: heroísmo e masculinidades na literatura da guerra colonial
Apoiando-me na referência a alguns textos que tematizam a experiência da guerra colonial, pretendo averiguar o modo como o paradigma patriarcal, homossocial e heteronormativo do heroísmo castrense surge, por vezes, instabilizado pela performatividade ambivalente de personagens neles representadas como gender benders. Discutir-se-á ainda o modo como a inscrição ficcional destas masculinidades em conflito parece postular novos modelos literários de heroísmo.

Fernanda Belizário, Toda vilã é heroína de si mesma: e se fossem as travestis a narrar a nação?
Propõe-se delinear alguns contributos dos estudos de identidades de gênero não-normativas que contestam a virilidade heteronormativa do discurso nacional hegemônico e trazem à tona formas alternativas de dar sentido à nação.

Sílvia Roque, Amílcar Cabral, herói mitigado: entre o desejo e o ressentimento
A comunicação analisa a construção do herói Amílcar Cabral, por gerações de guineenses que não viveram a luta de libertação, como significante mnemónico que evoca uma série de significados distintos atribuídos ao passado à luz da realidade pós-colonial. Se a representação de Cabral como líder africano e estratega maior continua a assumir um lugar primordial e incontestável entre as referências dos mais jovens, a representação de Cabral como herói da nação, apesar de constante e acesa, surge também, por outro lado, de forma mitigada em muitos discursos. Isto porque, argumentarei, a construção do heroísmo assenta hoje fundamentalmente num sentimento generalizado de ausência e orfandade, o qual se expressa tanto através do desejo como do ressentimento em relação ao que Cabral representa: o Estado, a Nação e a Luta.

Vasco Martins, Jonas Savimbi: memórias de um tempo que ainda não passou
Esta comunicação visa estabelecer um contraste entre duas representações da personagem mais polémica da vida contemporânea de Angola, Jonas Savimbi. Entre herói e vilão, libertador e traidor, homem do povo e assassino, as suas ideias e a memória do seu tempo permanecem firmemente incrustadas na mente dos Angolanos, pautando os seus medos e alimentando as suas aspirações. Nesta comunicação explorarei a forma como a figura ‘Jonas Savimbi’ propicia actos de memória passíveis de instrumentalização política, operando entre mnemónicas binárias que funcionam como repositório, não apenas de controlo social, mas que acentuam também a esperança por um país melhor.

Ana Cristina Santos, Heróis no armário: homens trans e pessoas não binárias prestadoras de cuidados
Nas narrativas biográficas recolhidas no âmbito do projeto INTIMATE, pessoas trans e não-binárias falam acerca do seu papel enquanto fonte de cuidados às/aos amigas/os, familiares e companheiras/os. Apenas nos estudos sobre a centralidade da amizade e das redes de cuidado para pessoas trans foi possível identificar narrativas de reconhecimento do estatuto de herói-cuidador LGBTQ, ou seja, de alguém que presta cuidados fundamentais ao bem-estar de outrem. As experiências de pessoas trans e não-binárias constituem uma plataforma política fundamental para repensar sociologicamente os conceitos de cuidado, masculinidade e dissidência corporal no marco da cidadania sexual na Europa do Sul.

Miguel Cardina e Inês Rodrigues, A figura do combatente: uma leitura diacrónica a partir de Cabo Verde
Com base numa reflexão mais ampla sobre a construção nacional da figura do combatente em contexto pós-guerras coloniais e de libertação, procurar-se-á traçar a evolução da representação do Combatente da Liberdade da Pátria em Cabo Verde demonstrando como esta sustenta uma hierarquia de valor que se articula em torno do binómio de heroísmo e vilania.

Ana Lúcia Santos, De campeã a fraude - considerações sobre as políticas reguladoras de corpos sexualmente não normativos no desporto
A fim de promover o fair play, várias instituições desportivas apresentam normas para a admissão de atletas com hiperandrogenia e atletas trans. Essas normas policiam aspetos biológicos e estéticos de quem não se enquadra num binarismo sexual estrito e prescreve procedimentos médicos com vista à "correção". Esta apresentação pretende discutir essas normas com uma perspetiva crítica direcionada ao racismo, sexismo e intersexofobia inerente às mesmas: mulheres que visualmente não subscrevam às noções convencionais de feminilidade ocidental branca e que adicionalmente tenham um desempenho desportivo acima da média são colocadas sob suspeita. O facto de este tipo de regulamentações ser apenas direcionado para competições femininas demonstra já a preocupação em manter uma segregação ideológica no desporto, na qual os homens deverão ter superiores em tamanho e em resultados

Mara Pieri, Supercrips: o fascínio (in)discreto da deficiência
Supercrips são pessoas com deficiência que geram fascínio através do seu sucesso extraordinário no âmbito desportivo, artístico ou científico. Analisar o imaginário acerca das e dos supercrips permite desvelar discursos interseccionais sobre heroísmo quotidiano, expectativas dominantes e (a)normalidade, expondo os ideais de fracasso e vitória que influenciam a construção social da deficiência. Palavras-chave: heróismo; corpo; deficiência; representação; supercrip; inspirational porn

Mercedes Sanchez Sainz, Somos Como Somos. Cuerpos y representaciones en Infantil y Primaria
Pedagogías queer como recursos contra el acoso escolar.: la diferencia como empoderamiento, desmantelando el concepto de normalidad y los binomios excluyente especialmente de género.