Teses Defendidas

Vozes que cuidam da t(T)erra: Uma narrativa ecofeminista com mulheres agricultoras na Serra do Montemuro, Portugal, e no baixo-Sul da Bahia, Brasil

Luísa de Pinho Valle

Data de Defesa
24 de Junho de 2026
Programa de Doutoramento
Democracia no Século XXI
Orientação
Gaia Giuliani e Teresa Cunha
Resumo
Esta Tese investigou práticas e proposições ecofeministas relacionadas à produção alimentar de mulheres agricultoras em dois contextos territoriais: a Serra do Montemuro, em Portugal, e o Baixo Sul da Bahia, no Brasil. Embora as participantes não utilizem o termo "ecofeminismo", as suas narrativas manifestam princípios e práticas coerentes com essa abordagem, entendida como interconexão vital entre espécies e natureza, e como posicionamento político frente a estruturas de dominação que sustentam as guerras contemporâneas contra as pessoas e a T(t)erra: patriarcado, colonialismo moderno ocidental, racismo e capitalismo de extração socioeconômica. Adotei metodologia qualitativa, participativa e feminista, com ênfase nas narrativas. Analisei: as intersecções entre gênero, raça, classe, ecossociogeografia e economia; as formas de resistência e alternativas individuais-comunitárias; os impactos da cultura patriarcal sobre a vida destas mulheres e da produção alimentar; e as pedagogias e epistemologias alternativas ao modelo agrotecnoindustrial dominante. A análise teórica e empírica demonstrou que a atual ordem socioeconômica neoliberal reproduz o "regime colonial-capitalístico", responsável pelo "eco-apartheid" planetário, que afeta pessoas, comunidades humanas e não humanas, ecossistemas e a T(t)erra. As experiências agroecológicas lideradas por mulheres, articuladas com associações e movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Via Campesina Internacional, constituem soberania e autonomia alimentar. As narrativas das participantes revelaram micropolíticas do cuidado com e para a t(T)erra, que recriam vínculos biossociais, reafirmam o bem-viver e desafiam lógicas predatórias do capital. Os resultados indicaram que a soberania alimentar vai além da dimensão nutricional, abrangendo modos de produção e comercialização pautados em relações cooperativas e ecológicas com e na gestão, regeneração, re/produção e preservação biossocial. As trajetórias de investigação teórica e empírica indicaram que a educação popular no e do campo e as políticas públicas participativas e contextualizadas possibilitam reinventar modos de ser, estar e conhecer racionalidades plurais, que alimentam a coexistência e a continuidade da nossa vida comum.

Palavras-chave: produção alimentar de mulheres agricultoras; ecofeminismo; micropolíticas de cuidado com a vida; agroecologia.