Teses Defendidas
Southern Questions. A postcolonial reading of Italian emigration
30 de Julho de 2026
Pós-Colonialismos e Cidadania Global
Catarina Caldeira Martins
e
Manuel Jesús Sabariego Gómez
Esta tese desenvolve uma genealogia pós-colonial do nacionalismo italiano através da triangulação analítica entre colonialismo, Questão Meridional e emigração. Argumenta que a identidade nacional italiana foi historicamente estruturada por uma condição específica de ambivalência: a racialização do Sul de Itália como Outro interno e a longa autorrepresentação dos italianos como emigrantes. Estas dinâmicas contribuíram para a produção daquilo que esta investigação conceptualiza como uma forma de "branquitude precária", sustentada por narrativas de excecionalidade e inocência.
Ancorada teoricamente nos estudos pós-coloniais e na teoria crítica da raça, e metodologicamente informada por abordagens feministas do conhecimento situado, a tese desafia o mito persistente da inocência branca italiana. Demonstra como a violência colonial foi minimizada através da sua circunscrição ao período fascista; como a emigração funcionou como alibi narrativo que obscurece as dimensões de colonialismo de povoamento da Itália; e como a Questão Meridional foi simultaneamente internalizada e externalizada nos regimes raciais da nação. Ao longo destes três eixos, um discurso de excecionalidade nacional foi ativamente construído através de apagamentos estratégicos, investimentos afetivos e dispositivos institucionais.
A primeira parte da tese reconstrói a articulação histórica entre a Questão Meridional e os empreendimentos coloniais italianos em África e nos Balcãs, destacando as continuidades entre a Itália liberal e o fascismo. Analisa depois a emigração italiana não apenas como experiência racializada no exterior, mas também como elemento constitutivo dos imaginários nacionalistas. Ao situar os migrantes italianos em diversos regimes raciais globais, a investigação complexifica interpretações binárias que apresentam os italianos exclusivamente como vítimas de racialização ou, pelo contrário, como inequivocamente incluídos na branquitude.
A segunda parte aplica este enquadramento teórico à Itália contemporânea, examinando o nexo entre imigração, emigração e o ressurgimento do discurso nacionalista apos a crise financeira de 2008. Mostra como o nacionalismo pós-colonial mobiliza repertórios afetivos centrados nas fronteiras, nas ansiedades demográficas e na cidadania racializada, ao mesmo tempo que apaga a renovada condição da Itália enquanto país de emigração. É dedicada particular atenção à transformação da Questão Meridional nos projetos nacionalistas contemporâneos.
A tese culmina com um trabalho de campo digital multissituado, baseado em vinte e cinco entrevistas semiestruturadas com jovens emigrantes italianos, incluindo 'migrantes pendulares' do Sul e italianos racializados de segunda geração no estrangeiro. Adotando uma abordagem feminista e informada pela história oral, a investigação privilegia a profundidade narrativa e a experiência situada em detrimento da representatividade estatística. As entrevistas revelam como posicionamentos liminares e marginais geram perspectivas críticas sobre a identidade nacional italiana, desestabilizando noções homogéneas e excludentes de pertença.
Ao conceptualizar o nacionalismo italiano como uma formação pós-colonial estruturada pela ambivalência, pela hierarquia racial e pela mobilidade, esta tese contribui para debates mais amplos sobre os nacionalismos europeus, a branquitude e as políticas de pertença. Propõe que os "Suis internos" da Europa funcionam não apenas como espaços de marginalização, mas também como pontos de observação epistémicos a partir dos quais interrogar as infraestruturas afetivas do nacionalismo contemporâneo.
Palavras-chave: Nacionalismo pós-colonial italiano; Questão Meridional; Estudos críticos da branquitude em Itália; Cidadania pós-colonial; Emigração italiana.
Data de Defesa
Programa de Doutoramento
Orientação
Resumo
Ancorada teoricamente nos estudos pós-coloniais e na teoria crítica da raça, e metodologicamente informada por abordagens feministas do conhecimento situado, a tese desafia o mito persistente da inocência branca italiana. Demonstra como a violência colonial foi minimizada através da sua circunscrição ao período fascista; como a emigração funcionou como alibi narrativo que obscurece as dimensões de colonialismo de povoamento da Itália; e como a Questão Meridional foi simultaneamente internalizada e externalizada nos regimes raciais da nação. Ao longo destes três eixos, um discurso de excecionalidade nacional foi ativamente construído através de apagamentos estratégicos, investimentos afetivos e dispositivos institucionais.
A primeira parte da tese reconstrói a articulação histórica entre a Questão Meridional e os empreendimentos coloniais italianos em África e nos Balcãs, destacando as continuidades entre a Itália liberal e o fascismo. Analisa depois a emigração italiana não apenas como experiência racializada no exterior, mas também como elemento constitutivo dos imaginários nacionalistas. Ao situar os migrantes italianos em diversos regimes raciais globais, a investigação complexifica interpretações binárias que apresentam os italianos exclusivamente como vítimas de racialização ou, pelo contrário, como inequivocamente incluídos na branquitude.
A segunda parte aplica este enquadramento teórico à Itália contemporânea, examinando o nexo entre imigração, emigração e o ressurgimento do discurso nacionalista apos a crise financeira de 2008. Mostra como o nacionalismo pós-colonial mobiliza repertórios afetivos centrados nas fronteiras, nas ansiedades demográficas e na cidadania racializada, ao mesmo tempo que apaga a renovada condição da Itália enquanto país de emigração. É dedicada particular atenção à transformação da Questão Meridional nos projetos nacionalistas contemporâneos.
A tese culmina com um trabalho de campo digital multissituado, baseado em vinte e cinco entrevistas semiestruturadas com jovens emigrantes italianos, incluindo 'migrantes pendulares' do Sul e italianos racializados de segunda geração no estrangeiro. Adotando uma abordagem feminista e informada pela história oral, a investigação privilegia a profundidade narrativa e a experiência situada em detrimento da representatividade estatística. As entrevistas revelam como posicionamentos liminares e marginais geram perspectivas críticas sobre a identidade nacional italiana, desestabilizando noções homogéneas e excludentes de pertença.
Ao conceptualizar o nacionalismo italiano como uma formação pós-colonial estruturada pela ambivalência, pela hierarquia racial e pela mobilidade, esta tese contribui para debates mais amplos sobre os nacionalismos europeus, a branquitude e as políticas de pertença. Propõe que os "Suis internos" da Europa funcionam não apenas como espaços de marginalização, mas também como pontos de observação epistémicos a partir dos quais interrogar as infraestruturas afetivas do nacionalismo contemporâneo.
Palavras-chave: Nacionalismo pós-colonial italiano; Questão Meridional; Estudos críticos da branquitude em Itália; Cidadania pós-colonial; Emigração italiana.

