Teses Defendidas

O que esconde a casca da mulher caracol? Maternidade, Capacitismo e Migração

Marina Dias de Faria

Data de Defesa
30 de Julho de 2026
Programa de Doutoramento
Estudos Feministas
Orientação
Sílvia Portugal
Resumo
Esta tese investigou as trajetórias de mulheres imigrantes em Portugal que são mães de pessoas com deficiência intelectual, com foco nas suas redes sociais de apoio e na inserção no mercado de trabalho. Partindo da hipótese de que estas mulheres vivenciam um processo de desfiliação, a pesquisa analisa como migração, maternidade atípica e capacitismo se entrelaçam na produção de vulnerabilidades e possibilidades de pertença social. Foram realizadas entrevistas semi estruturadas centradas em narrativas de histórias de vida, complementadas pelo uso de cartas e álbuns fotográficos. Essa abordagem metodológica, inspirada em epistemologias feministas e decoloniais, permitiu captar dimensões afetivas, silêncios e gestos que escapam às entrevistas tradicionais, ampliando a visibilidade das experiências investigadas. Para dar forma visual às trajetórias narradas, foram desenvolvidas ilustrações, garantindo uma interpretação sensível das histórias e uma devolutiva afetiva às participantes. Os resultados demonstram que as participantes transitam por zonas de extrema vulnerabilidade. A análise evidencia que a desfiliação é um processo relacional e instável, atravessado por redes sociais frágeis, trabalho precário e ausência de políticas públicas interseccionais. Revela, ainda, que a centralidade do cuidado com os/as filhos/as com deficiência, mais do que a migração em si, é o fator preponderante na (des)continuidade de trajetórias profissionais. No campo teórico, o estudo propõe um alargamento da matriz de Castel, introduzindo novas zonas analíticas - Pêndulo, Limite e Dependência - que captam formas contemporâneas de precariedade e pertença social, situadas na intersecção entre género, migração e cuidado. No campo metodológico, destaca a potência de dispositivos narrativos e visuais na produção de conhecimento ético e partilhado. Ao dar centralidade às vozes dessas mulheres - frequentemente silenciadas, tanto nos Estudos da Deficiência, quanto nos Feminismos -, esta tese contribui para visibilizar e problematizar processos de desfiliação e para inspirar respostas políticas e institucionais mais justas, reconhecendo o cuidado como força motriz das migrações e como eixo fundamental da cidadania social. A tese recomenda revisões no Estatuto do Cuidador Informal, criação de gabinetes locais de apoio integrado e políticas públicas sensíveis às especificidades das mães cuidadoras migrantes.

Palavras-chave: migração; cuidado; capacitismo; desfiliação; redes sociais