Teses Defendidas

As ações e alianças da CUT em relação às lutas da comunidade LGBTQIA+: Estratégias de revitalização sindical?

Vítor Godoi

Data de Defesa
24 de Julho de 2026
Programa de Doutoramento
Sociologia: Trabalho, Organizações e Desigualdades
Orientação
Fernanda Forte de Carvalho e Ana Cristina Santos
Resumo
As transformações recentes do mundo do trabalho, associadas à flexibilização produtiva e de direitos, à fragmentação ocupacional e à reorganização das cadeias globais de valor, alteraram significativamente as bases materiais e simbólicas da ação coletiva de quem trabalha. A redução da densidade associativa, o enfraquecimento dos mecanismos clássicos de negociação coletiva, a expansão do trabalho informal e precarizado e as reformas liberalizantes impactaram o financiamento, a organização e os repertórios de representação sindical, configurando um cenário caracterizado como crise sindical, ainda que assuma formas distintas em cada contexto nacional. No Brasil, tais processos intensificaram-se após a aprovação da reforma trabalhista de 2017, redefinindo as condições de atuação e legitimidade das organizações sindicais. Nesse contexto, o debate sobre revitalização sindical orienta-se, nesta pesquisa, a partir da análise do caso da Central Única dos Trabalhadores - CUT e de sua relação com a comunidade LGBTQIA+. A escolha da CUT justifica-se por sua trajetória histórica como a maior central sindical do país, por suas origens no novo sindicalismo e por sua tradição de articulação entre demandas trabalhistas, lutas por democratização e diálogo com movimentos sociais. Desde os anos 1990, a CUT vem respondendo às mudanças no mundo do trabalho por meio da formulação do sindicalismo cidadão, perspectiva que amplia o horizonte da ação sindical para além da esfera estritamente laboral. Nesse movimento insere-se a aproximação com o movimento LGBTQIA+, cuja trajetória no Brasil articula processos de organização política, construção de políticas públicas, judicialização de direitos e enfrentamento a ciclos de reação conservadora. A consolidação da noção de cidadania sexual como perspectiva política trouxe para o centro do debate reivindicações por reconhecimento, igualdade material e proteção contra discriminações, inclusive no mundo do trabalho. A incorporação dessa pauta pelo sindicalismo apresenta relevância diante da necessidade de ampliar e renovar as bases sociais da CUT, dialogar com novas gerações de trabalhadores e enfrentar desigualdades que articulam classe, gênero e sexualidade. O objetivo central da tese consiste em compreender de que modo a CUT incorporou a temática LGBTQIA+ em suas ações e alianças entre 2000 e 2023, verificando se tais iniciativas se inserem em uma estratégia de revitalização sindical. A pesquisa adota abordagem qualitativa e orienta-se por um modelo analítico organizado em quatro dimensões da revitalização sindical: institucional, filiação, societal e integração em rede, com base nas contribuições da literatura que lida com a revitalização sindical, principalmente nos estudos de Costa et al. (2020) e Krein e Dias (2015). O estudo combina análise documental de resoluções congressuais, textos programáticos e materiais formativos da CUT, entrevistas com dirigentes envolvidos na temática LGBTQIA+ e análise de conteúdo de perfis digitais da CUT-Brasil no Facebook e no Instagram. A interpretação dos dados indica que a incorporação da temática LGBTQIA+ foi atravessada por controvérsias internas, negociações de sentido e assimetrias organizativas, condicionando a consolidação das ações e alianças mais como expedientes táticos do que como diretrizes estratégicas de revitalização sindical. A controvérsia da temática emerge como elemento estruturante do período analisado, ao evidenciar tensões entre inovação discursiva e práticas organizativas, bem como entre reconhecimento normativo e capacidade de conversão em pertencimento, mobilização e poder sindical. Conclui-se que o investimento da CUT nessa agenda apresenta relevância tanto no enfrentamento da discriminação quanto na possibilidade de reconstruir a legitimidade pública, renovar as bases sociais e reafirmar a solidariedade em um contexto marcado por desigualdades e precarização do trabalho.

Palavras-chave: Brasil; Central Única dos Trabalhadores; Cidadania Sexual; Movimento LGBTQIA+; Revitalização Sindical