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Publicação científica
Tiago Santos Pereira

Tendo emergido como o meio central de comunicação científica desde o século XVII, promovendo a disseminação do conhecimento e garantindo a credibilidade dos resultados por meio de revisão por pares, a publicação científica enfrenta hoje desafios significativos. A edição de revistas, tradicionalmente liderada por sociedades e instituições científicas, tornou-se numa lucrativa atividade, dominada por um conjunto limitado de editoras privadas. Cobrando a cientistas o acesso à leitura, no modelo tradicional, ou à publicação de artigos, no modelo de acesso aberto, as editoras têm rendas garantidas pelas instituições académicas que produzem os conteúdos dessas mesmas editoras. O debate em torno do acesso aberto foi importante para desafiar o regime estabelecido, mas apesar de alterar os termos do negócio manteve a relação de poder, se não mesmo acentuando desigualdades. Transferindo o custo do acesso para a publicação de artigos, esta é assim facilitada para os países e instituições de maiores recursos, concentrando a produção de conhecimento e os seus potenciais impactos. Por outro lado, o sistema de avaliação dominante – baseado no impacto das revistas, e não das publicações individuais, e valorizando a quantidade –, funciona como incentivo a um aumento da publicação, garantindo assim o negócio. Com este “mercado” crescente, surgem também novas editoras e revistas, predatórias, atraindo investigadores/as com promessas de publicação fácil e rápida e diminuindo exigência e qualidade. Com oferta e procura a aumentar, o número de publicações científicas mantém idêntica tendência, limitando a capacidade de estas representarem um espaço de debate científico aberto e de impacto social que outrora promoveram.

O sistema de publicação científica deve deixar de ser dominado pelo sistema editorial ou pelo crescimento contínuo da publicação e os/as cientistas devem pugnar por um modelo de publicação e avaliação que contribua para os objetivos centrais de disseminação de conhecimento, de elevada qualidade e impacto social, diversificado e acessível. A presente pandemia de COVID-19 mostrou isso mesmo, quer por via da dinamização de novas vias de publicação e disseminação aberta de dados e publicações, quer pela importância de práticas éticas e pela dificuldade de as regular simplesmente pelos meios tradicionais de publicação. A alternativa tem assim de passar por duas dimensões. Por um lado, os incentivos institucionais devem deixar de fomentar o crescimento ilimitado de publicações, valorizando a qualidade, o impacto social da investigação e a discussão aberta. Por outro lado, o financiamento público deve garantir o apoio a iniciativas editoriais, tradicionais e inovadoras, como o foram os repositórios ou a ciência aberta, lideradas por cientistas, sem objetivo de lucro, com objetivos e públicos diversificados, de modo a garantir que a concorrência na publicação é determinada não pelo mercado, mas sim pela ciência enquanto bem público.



Como citar:
Pereira, Tiago Santos (2020), "Publicação científica", Palavras para lá da pandemia: cem lados de uma crise. Consultado a 21.09.2021, em https://ces.uc.pt/publicacoes/palavras-pandemia/?lang=1&id=30476. ISBN: 978-989-8847-24-9