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Complexidade

A crise atual resultante da pandemia de COVID-19 emerge, como tantas outras, como uma natural expressão da complexidade do mundo. Um vírus microscópico desmonta um todo muito maior. Perturba-nos e abre caminho para a transformação, não por ser capaz de abarcar a totalidade do mundo, ou por medir forças, reduzi-lo, fragmentá-lo ou controlá-lo, mas por, naturalmente, emparelhar com a sua complexidade, atuando de forma congruente com a mesma. Assim, introduz perturbações profundas na matriz relacional que sustenta o mundo e a sua complexidade, operando como parte integrante dela: afeta as relações internas que sustentam a nossa integridade biológica, as relações que nos sustentam como sociedade, as relações que nos constituem como parte do mundo físico e biológico.

Como produto emergente da complexidade, o vírus não é, em si mesmo, complexo, mas torna-se complexo por via do seu modo de acoplagem com o mundo: seguindo os mesmos princípios organizadores, entendendo a natureza cooperativa, sinergética, construtiva das relações que o geram. Este vírus não é um estranho porque entende e entranha-se nesta matriz relacional e dessa congruência resulta o seu grande impacto. Surgido da complexidade, introduz uma perturbação profunda nos vários níveis de organização dos nossos modos de vida, criando oportunidades de transformação. Mas um risco maior assenta na perpetuação dos velhos modos de pensamento que nos trouxeram a este ponto de bifurcação: vulnerabilidade ou oportunidade? Destruição ou (re)criação?

É possível encontrar modos para lidar com a complexidade do mundo através da complexidade do nosso pensamento. Há algumas estratégias e recursos disponíveis que podem suportar um pensamento (mais) complexo, mas que precisam de ser coordenadas dentro de um quadro ontológico e epistemológico relacional. Novas estratégias devem ser desenvolvidas para a prática de um modo de acoplagem congruente com a complexidade do mundo: que simultaneamente a reconheça e a desempenhe, para a emergência de um melhor mundo para todos.

A prática do nosso pensamento, que informa a ação e nela se sustenta, tem de desempenhar uma maior complexidade:

  1. Estrutural (multidimensionalidade/variedade; relacionalidade, recursividade);
  2. Dinâmica (integração de escalas temporais; processos e dinâmicas; ambiguidade-incerteza);
  3. Causal (múltiplos modos de descrição e finalidades; dependência da sua própria história; complexidade circular e relações parte-todo; causalidade emergente e pensamento abdutivo);
  4. Dialética e complementaridades (dualidades e complementaridades; níveis e processos);
  5. Dependente do observador (multiposicionamento e múltiplas perspetivas; reflexividade; intencionalidade);
  6. Adaptativa e evolutiva (valor adaptativo; potencial evolutivo);
  7. Pragmática (valor pragmático; sustentabilidade);
  8. Ética e estética (valores);
  9. Narrativa (diferenciação e coerência; coordenação e identidades de múltiplos observadores críticos; flexibilidade/abertura).

A solução? Emparelhar complexidade com complexidade.



Como citar:
Melo, Ana Teixeira de (2020), "Complexidade", Palavras para lá da pandemia: cem lados de uma crise. Consultado a 04.03.2021, em https://ces.uc.pt/publicacoes/palavras-pandemia/?lang=1&id=30514. ISBN: 978-989-8847-24-9