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Interdisciplinaridade*

“Sobre ombros de gigantes” é uma metáfora que reconhece o modo como construímos conhecimento sobre conhecimento construído por outras pessoas. Mas pode ser também interpretado como uma metáfora para as referências em que assenta cada uma das diferentes disciplinas científicas. Nesse caso a biologia terá referências distintas da medicina ou da sociologia ou da literatura. Da mesma forma como identificamos os nossos diferentes “gigantes”, também a academia foi crescendo dividindo-se em faculdades, departamentos, centros de investigação. O diálogo entre disciplinas científicas tornou-se mais difícil e, por vezes, quase inexistente. Mas, tal como num enorme castelo de cartas, o nosso mundo é um conjunto de organismos vivos, elementos não vivos e património material e imaterial, em equilíbrios e interacções mais ou menos profundas, delicadas, intrincadas. Olhando individualmente para este castelo não conseguimos abarcar todas essas dimensões nem as suas ligações. Vivemos num mundo complexo, com problemas que muitas vezes se manifestam a uma escala global, como a presente pandemia de COVID-19, e que, por isso, exige abordagens integradas. A partir de uma única disciplina científica não conseguiremos perceber as complexidades locais e globais que a miríade de contactos e relações entre as partes que compõe a realidade estabelece. Não conseguiremos identificar as fragilidades desse equilíbrio dinâmico. E sem este olhar completo, dificilmente compreenderemos o(s) problema(s) e encontraremos formas de o(s) gerir ou eliminar.

A interdisciplinaridade funciona através do diálogo entre disciplinas, um mecanismo de ligação entre diferentes linguagens, métodos e práticas que permite a sua integração para melhor reflectir as complexidades do mundo. Porque o conhecimento não está contido nos limites disciplinares. O processo de construção do conhecimento é fluido, activo, alimenta-se das múltiplas formas de olhar e interpretar a realidade, e pode mudar de acordo com a sensibilidade, o vocabulário, a experiência ou a técnica de quem nele participa. É através do cruzamento das fronteiras disciplinares que ampliamos o olhar sobre cenários complexos e/ou capazes de ameaçar a sustentabilidade humana. As realidades criadas pela pandemia de COVID-19 mostram claramente a necessidade de abordagens interdisciplinares. Precisamos de um debate alargado, juntando vozes dos diferentes conhecimentos disciplinares e de actores sociais relevantes – como assistentes sociais, profissionais da saúde, líderes comunitários, activistas de movimentos sociais e/ou ambientais – para capturar a complexidade da situação.  Temos de saber criar espaços indisciplinados a partir das porosidades entre as disciplinas científicas e entre estas e as instituições ligadas aos diferentes sectores sociais. Espaços de debate democrático e horizontal, onde todos os saberes se possam encontrar, ajudando não só a perceber as realidades actuais, mas também a encontrar soluções sustentáveis para lidar com os problemas do presente e prevenir os do futuro.

 


* Por vontade da autora, este texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.



Como citar:
Campos, Rita (2020), "Interdisciplinaridade", Palavras para lá da pandemia: cem lados de uma crise. Consultado a 04.03.2021, em https://ces.uc.pt/publicacoes/palavras-pandemia/?lang=1&id=30280. ISBN: 978-989-8847-24-9