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Crise metropolitana e planeamento

Nos territórios urbanos da Área Metropolitana de Lisboa, parte da recuperação da grande crise financeira de 2008 assentou na estratégia de rentabilização da cidade – isto é, na captação de investimento para o imobiliário e na turistificação dos centros históricos. Esse modelo foi desenhando uma estrutura económica metropolitana, que apontava sinais de desequilíbrio: excessivamente centrada na procura externa; valorizando os ativos imobiliários a preços internacionais, mas persistindo na desvalorização salarial e precarização do trabalho; expulsando classes populares e segmentos jovens para abrir caminho à gentrificação transnacional e à turistificação.

Esse modelo de rentabilizar a cidade, sempre frágil e produtor de desigualdades, tornou-se insustentável no contexto pós-pandemia: porque acumulou um stock habitacional para venda e/ou alojamento turístico dirigido a uma procura externa que colapsou, e que não sabemos quando (ou se) regressará nos mesmos termos; e porque se sustentou criando emprego precário, pouco qualificado e mal pago, quase sem proteção social e agora sem perspetivas futuras. Hoje, ficam patentes as fragilidades desse modelo: um centro metropolitano a transbordar de casas vazias, mas “acima das possibilidades” da esmagadora maioria da população metropolitana; uma economia sem sustentação local; e um modelo residencial caro e que incentivou a suburbanização.

O enfrentamento do colapso desse modelo deve assentar no combate às fragilidades que emergiram por estes dias. Precisamos de políticas públicas que contrariem a financeirização da habitação e da economia; que criem emprego qualificado e atividade económica localmente sustentada; e que contribuam para a emergência da transição energética. Isso traduz-se em: 1) reforçar o parque habitacional público; 2) direcionar o stock habitacional que até aqui servia de alojamento local para o arrendamento urbano acessível, e assim contrariar o endividamento das famílias e a periferização residencial de matriz suburbana; e, 3) relançar a economia/emprego local preparando a requalificação energética e ambiental do edificado e da mobilidade metropolitana.

A implementação de uma agenda de vocação económico-territorial deste tipo exige articulação, compromisso e coordenação que olhe o território como colocando o problema, mas também a solução. Assim, julgamos que a resposta aos desequilíbrios tem de assentar na capacitação de agentes e políticas públicas conjugadas em escala metropolitana. É, portanto, necessário desenhar uma prática de planeamento político que foi abandonada na última década – fazer um plano como processo político de construção de uma orientação que conjugue atores, escalas e políticas públicas.



Como citar:
Drago, Ana (2020), "Crise metropolitana e planeamento", Palavras para lá da pandemia: cem lados de uma crise. Consultado a 04.03.2021, em https://ces.uc.pt/publicacoes/palavras-pandemia/?lang=1&id=30092. ISBN: 978-989-8847-24-9