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Economia do cuidado

Como disse um dos mais sábios economistas, Albert Hirschman, a organização da vida material e das relações sociais sob o capitalismo pode ser encarada a partir de duas “visões rivais”: a que sublinha a prevalência do individualismo, do uso dos recursos até à exaustão e da corrosão dos fundamentos relacionais das sociedades e a que, inversamente, dá mais importância ao interesse geral e à geração de bens comuns. Confrontam-se assim as teses da autodestruição e dos efeitos civilizacionais (ou do doux commerce) do capitalismo. Certamente que o que levou a que o capitalismo tivesse assegurado uma tão longa duração terão sido articulações variáveis destes dois princípios. Contudo, parece claro que estamos hoje perante uma realidade cuja natureza intrínseca nunca foi tão extrema. Ela extremou-se pelo alargamento incessante das transações, pelas mobilidades, pela acumulação, pela exclusão de muitos (pela propriedade e pelo dinheiro) do acesso aos frutos da criação de riqueza, pela exploração de recursos, espaços e pessoas e, enfim, na instituição de desigualdades. Além disso, as evoluções mais recentes dos capitalismos tornaram evidente a propensão para o domínio dos mercados financeiros sobre a vida das pessoas, as comunidades, os Estados, os recursos e, enfim, o próprio sistema produtivo.

O predomínio, escassamente contrabalançado, das racionalidades individualistas, dos princípios dos mercados, sobretudo dos financeiros, do estreitamento da ação e da provisão públicas, da separação da economia relativamente às comunidades que devia servir (países, regiões, lugares), da sobrecarga ambiental, das visões globalistas, da subestimação do bem-estar ou da desvalorização do trabalho e dos mecanismos sociais de inclusão levou a uma enorme insustentabilidade das sociedades e das economias contemporâneas. A pandemia, ao confrontar os capitalismos com a paragem de muitas atividades, a quebra das mobilidades e das cadeias de abastecimentos, mostrou as dependências graves que se foram gerando e revelou quão perigosas e insustentáveis são as sociedades que fomos construindo. Ao mesmo tempo, mostrou também as respostas mais seguras, a que todos recorremos: a ação pública, o conhecimento, os serviços coletivos, as solidariedades e a proximidade.

Uma economia do cuidado é, em primeiro lugar, uma economia que assegure o essencial da provisão de um país e de quem lá viva, uma economia que tenha poder sobre si própria e que quebre as dependências mais graves, aquelas que tornam os países, as regiões e as pessoas – isto é, as comunidades – sujeitos a vulnerabilidades. É, portanto, toda a economia e não apenas certas áreas da sociedade, como o chamado terceiro setor ou os ramos dos cuidados pessoais. Trata-se, evidentemente, de economia política, das deliberações coletivas que há que tomar para organizar o país. Oxalá que esta fosse a forma de economia política que determinará o ciclo indefinido e instável que temos pela frente e que era bom que soubéssemos governar.



Como citar:
Reis, José (2020), "Economia do cuidado", Palavras para lá da pandemia: cem lados de uma crise. Consultado a 04.03.2021, em https://ces.uc.pt/publicacoes/palavras-pandemia/?lang=1&id=30484. ISBN: 978-989-8847-24-9