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27-01-2026 #37

Imagem|Freepik


Violência filioparental: a invisibilidade de um fenómeno relacional.


Desafios na compreensão e intervenção


A violência filioparental (VFP) permanece uma realidade pouco reconhecida no espaço público e privado, apesar de surgir com frequência em contextos clínicos, educativos e de proteção. Trata-se de um fenómeno relacional, que não decorre de psicopatologia, no qual um filho ou filha exerce violência continuada sobre uma figura parental responsável pelo seu bem-estar e desenvolvimento, da qual depende nas principais dimensões da sua vida.

A VFP emerge no contexto da história familiar e não tem uma causa única. Resulta da interação entre fatores individuais, familiares e sociais, e não pode ser atribuída apenas às características do filho ou dos pais. Entre os fatores do filho, salientam-se a impulsividade, as dificuldades na autorregulação e a baixa tolerância à frustração, características frequentemente associadas a dinâmicas familiares desajustadas e a estilos parentais extremos. Estilos parentais muito rígidos, centrados no controlo, ou, pelo contrário, excessivamente permissivos e sem regras claras, acabam por dificultar a responsabilização e o desenvolvimento autónomo, sobretudo quando coexistem com a sobreproteção ou a incoerência entre os pais. Também o contexto social tem um papel determinante: o isolamento, a exposição à violência e a exposição desregulada a conteúdos digitais aumentam a vulnerabilidade destas famílias.



Na maioria das famílias, a escalada da violência é gradual, começa com hostilidade verbal dos filhos, evolui para ameaças, destruição de objetos ou empurrões aos pais, e instala-se um padrão relacional marcado pela inversão da hierarquia familiar. Os pais, por inseguranças, desgaste e receio das reações dos filhos, veem-se condicionados no exercício da sua autoridade, particularmente na definição de limites e regras, enquanto os filhos passam a assumir o controlo através do comportamento violento. Este clima de tensão constante gera sofrimento nos pais e altera profundamente o equilíbrio familiar, comprometendo a proteção e o desenvolvimento emocional e social de crianças e jovens.

Parte da invisibilidade deste fenómeno resulta da dificuldade em reconhecê-lo. Socialmente, tendemos a interpretar comportamentos agressivos de crianças ou jovens como fases, imaturidade, mera oposição ou tentativas de afirmação. Esta leitura, embora compreensível, pode mascarar sinais de risco. A fronteira entre conflito normativo e violência torna-se pouco clara quando existe desgaste continuado, negação e evitamento por parte dos pais, ou necessidade constante de ceder para impedir que o conflito escale.

Os pais que vivenciam violência filioparental descrevem, muitas vezes, medo, vergonha e um sentimento profundo de impotência. A sociedade reforça, explícita ou implicitamente, a ideia de que “um pai deve saber controlar a situação”, o que aumenta a culpa e contribui para que procurem ajuda tardiamente. Em paralelo, os jovens envolvidos, sem referências afetivas consistentes, podem estar a expressar sofrimento emocional, dificuldades de vinculação, experiências adversas ou sentimentos de desorganização emocional através do comportamento violento. Por outro lado, a forma como habitualmente interpretamos a violência familiar leva-nos a separar agressor e vítima, responsabilizando um e protegendo o outro. Na violência filioparental, porém, os pais são responsáveis pelo filho, e o que necessitam é de apoio na reconstrução de laços e limites familiares.

Intervir exige, por isso, compreender o sistema como um todo, sem reduzir o problema ao comportamento do jovem ou à competência parental isolada. O foco deve ser a organização familiar e a forma como cada elemento contribui para a manutenção, ou para a mudança, da dinâmica violenta.

As respostas mais eficazes combinam trabalho individual, intervenção parental e sistémica. Os jovens beneficiam de abordagens que promovam regulação emocional, responsabilização e alternativas à agressividade. Os pais precisam de apoio para recuperar fronteiras, autoridade e confiança. A família, enquanto sistema, requer espaços de comunicação seguros, clarificação de expectativas e reconstrução de uma hierarquia saudável. Em muitos casos, é necessária articulação entre serviços (saúde, educação, proteção, justiça) para garantir segurança e continuidade no trabalho desenvolvido.

A VFP assume diversas formas e deixa marcas. As marcas invisíveis são, muitas vezes, as que persistem e se transformam. É urgente compreender, intervir e prevenir, para alterar a trajetória relacional destas famílias.

Dar visibilidade à violência filioparental não passa por juízos morais ou culpabilizantes. Exige reconhecer que algumas famílias vivem diariamente uma realidade que não conseguem reconhecer ou nomear e que por isso permanece oculta. Tornar este fenómeno falado e compreendido é um passo essencial para reduzir o estigma, promover a procura de ajuda e construir respostas ajustadas e integradas.


Neusa Patuleia - Psicóloga Clínica e Forense


Referências

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Como citar este texto:

Patuleia, N. Violência filioparental: a invisibilidade de um fenómeno relacional.
Desafios na compreensão e intervenção. InfoTRAUMA, 37.

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