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24-02-2026 #38

Imagem|Unsplash



A Arte das Narrativas na Saúde Mental e no Empoderamento Social



As narrativas são formas de organizar a experiência, dar sentido à existência e afirmar identidades. A capacidade de contar histórias e de ser escutado é, em si mesma, uma forma de poder. Quem tem voz molda perceções, influencia comportamentos e participa ativamente na construção da realidade social. Vivemos um tempo em que o populismo cresce, alimentando-se de medos e de narrativas distorcidas. Pessoas migrantes, LGBTQIA+, racializadas, em situação de pobreza, entre outras comunidades subrepresentadas, tornam-se tornam alvos fáceis para discursos que reduzem vidas a estereótipos, que transformam diversidade em ameaça e vulnerabilidade em culpa. São histórias contadas de fora, moldadas pelo preconceito, que apagam o rosto humano e as verdadeiras realidades.

É aqui que a arte de contar histórias se ergue como resistência. Nomeadamente intervenções através de workshops Digital Storytelling (narrativas digitais), no qual os participantes têm espaço para narrar a sua própria história, contar a sua própria história ao seu ritmo, com a sua própria voz, utilizando as suas fotografias, desenhos, vídeos pessoais, tendo o potencial de criar uma fissura na parede do estigma. Através dessas fissuras, estas contranarrativas revelam vidas plenas de sonhos, de afetos, de coragem. O Digital Storytelling não é apenas uma prática criativa, é uma ferramenta que tem o potencial de potenciar a atribuição de novos significados às suas histórias e promover o seu próprio bem-estar psicológico; e, quando partilhadas com a comunidade geral, podem atuar como um contra-ato político, tendo o potencial de desfazer a teia das mentiras populistas e devolver a humanidade a quem é reduzido ao silêncio.

A investigação realizada anteriormente confirma este potencial. O estudo Employability narratives in digital storytelling: do overqualified Brazilian and Venezuelan immigrants in Portugal tell the same story? (Nascimento et al., 2024) mostra como imigrantes qualificados em Portugal, ao construírem as suas histórias digitais de empregabilidade, revelam as barreiras estruturais que enfrentam no mercado de trabalho (p.e., sobrequalificação), mas também estratégias de resiliência e de reinvenção. As suas narrativas não são apenas testemunhos pessoais, mas espelhos de um contexto social que frequentemente invisibiliza as suas competências e identidades. Tornar públicas estas histórias pode lançar luz sobre as verdadeiras realidades destas comunidades, combater o preconceito, dar visibilidade às desigualdades e abrir caminhos para uma sociedade mais inclusiva.

Cada história partilhada é um convite à empatia. Aproxima universos distantes, recorda-nos que por trás de cada rótulo existe sempre alguém que deseja ser amado, reconhecido e respeitado. Ao circular no espaço público e digital, estas narrativas tornam-se sementes de transformação, promovendo a consciência crítica e a solidariedade num espaço muitas vezes dominado pelo medo e pela indiferença. Refletir sobre a arte das narrativas é, portanto, lembrar que cuidar é também escutar. É afirmar que uma sociedade saudável se constrói com vozes diversas que encontram um lugar de pertença. É refletir sobre a importância de atuar no campo da prevenção na saúde, na promoção da resiliência individual e social.

Num tempo em que existe a intenção de monopolizar a narrativa para dividir e excluir, torna-se, assim, urgente criar espaços onde todos possam ter a capacidade de controlar as suas próprias narrativas, onde as suas vozes possam ser ouvidas. Contar histórias é mais do que recordar: é resistir, é reconstruir. E apenas ouvindo as histórias reais das comunidades sub-representadas, conseguiremos semear uma comunidade mais justa, solidária e mais democrática.


Paulo Nascimento - Professor Auxiliar Convidado (Universidade da Madeira); Psicólogo e Investigador Integrado (ITI/LARSyS)


Referências

Nascimento, P., Roberto, M. S., Lemos, M., Poole-da-Costa, M. C., & Santos, A. S. (2024). Employability narratives in digital storytelling: Do overqualified Brazilian and Venezuelan immigrants in Portugal tell the same story? Qualitative Research in Psychology, 21(1), 140–174. https://doi.org/10.1080/14780887.2023.2293078


Como citar este texto:


Nascimento, P. A Arte das Narrativas na Saúde Mental e no Empoderamento Social. InfoTRAUMA, 38.

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